A Psicoterapia Baseada em Evidências (PBE) valoriza abordagens terapêuticas que demonstram eficácia através de rigorosa pesquisa científica, tendo como referência principal de evidências, os ensaios clínicos randomizados. Dentro desse panorama, as terapias comportamentais representam um pilar, que vem evoluindo por décadas, processo chamado de ondas, para se tornarem o “padrão ouro” para diversos quadros clínicos. Conhecer essa trajetória histórica é importante para saber um pouco mais sobre a adequação e a adaptabilidade da sua psicoterapia baseada em PBE.
A Primeira Onda: A Revolução da Terapia Comportamental (TC)
A gênese das terapias comportamentais reside na Terapia Comportamental (TC) clássica, que emergiu na primeira metade do século XX como uma reação à psicanálise. Influenciada pelos princípios da aprendizagem, como o condicionamento clássico (Pavlov) e o condicionamento operante (Skinner), a TC focava na modificação de comportamentos observáveis.
- Alguns Conceitos: Aprendizagem, condicionamento, comportamento respondente e operante, extinção, reforçamento, modelagem.
- Algumas Intervenções: Dessensibilização sistemática para fobias, técnicas de exposição, treinamento assertivo, economia de fichas.
- Crítica: A TC inicial, originária, recebeu críticas por negligenciar os processos cognitivos, não visíveis, e a experiência interna dos indivíduos.
A Segunda Onda: A Ascensão da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
A insatisfação com o foco exclusivo no comportamento observável levou ao desenvolvimento da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), marcada como a “segunda onda”. A TCC integrou a importância dos pensamentos e da cognição na compreensão e modificação do comportamento e das emoções.
- Alguns Conceitos: Pensamentos automáticos, crenças centrais, esquemas cognitivos, reestruturação cognitiva, modelo ABC.
- Algumas Intervenções: Identificação e modificação de pensamentos disfuncionais, experimentos comportamentais, questionamento socrático, terapia racional emotivo-comportamental (TREC) de Albert Ellis e a terapia cognitiva de Aaron Beck.
- Padrão Ouro: A TCC se estabeleceu como padrão ouro para uma ampla gama de transtornos, como ansiedade, depressão, TOC e outros, com vasta evidência de sua eficácia.
A Terceira Onda: A Virada Contextual e de Aceitação
Nas últimas décadas, surgiu a chamada “terceira onda” das terapias comportamentais, que expandiu o foco da modificação direta de pensamentos para a relação com esses pensamentos e emoções. Essa onda enfatiza a aceitação, a atenção plena (mindfulness) e a ação direcionada por valores.
- Principais Abordagens:
- Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): Foca na aceitação de experiências internas difíceis e no compromisso com ações alinhadas aos valores pessoais.
- Terapia Comportamental Dialética (DBT): Desenvolvida inicialmente para o Transtorno de Personalidade Borderline, enfatiza a regulação emocional, a tolerância ao mal-estar, a efetividade interpessoal e a mindfulness.
- Terapia Focada na Compaixão (CFT): Desenvolve a autocompaixão e a compaixão pelos outros para reduzir a autocrítica e o sofrimento.
- Mindfulness-Based Cognitive Therapy (MBCT): Combina técnicas de mindfulness com princípios da TCC para prevenir recaídas na depressão.
- Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): Foca na aceitação de experiências internas difíceis e no compromisso com ações alinhadas aos valores pessoais.
- Alguns Conceitos: Aceitação psicológica, defusão cognitiva, eu como contexto, valores, ação comprometida, mindfulness, desregulação emocional, dialética, tolerância ao mal-estar, autocompaixão.
- Padrões Ouro: ACT e DBT se consolidaram como padrões ouro para condições complexas como transtornos de personalidade, transtornos de humor refratários e problemas relacionados à desregulação emocional.
Rumo à Próxima Onda: Integração, Personalização e Foco em Processos
As tendências atuais e futuras da PBE apontam para uma “próxima onda”, ainda em análise e avaliação para talvez ser reconhecida como de “padrão ouro”, que busca refinar ainda mais a eficácia e a aplicabilidade das terapias comportamentais. Algumas das principais direções incluem:
- Foco em Processos Transdiagnósticos: A identificação e o tratamento de processos psicológicos fundamentais que estão presentes em diversos transtornos mentais, como a evitação experiencial, a ruminação, a desregulação emocional e os déficits em habilidades sociais. Essa abordagem visa tratar a raiz comum de diferentes problemas.
- Avanços na Neurociência: A integração dos achados da neurociência para aprimorar a compreensão dos mecanismos de ação das terapias comportamentais e desenvolver intervenções mais direcionadas e eficazes.
- Busca por uma maior integração: por integrar princípios e técnicas de diferentes abordagens da PBE e de outras escolas terapêuticas (como a psicoterapia psicodinâmica e a terapia humanista) de forma coerente e baseada em evidências.
- Personalização do Tratamento: A utilização de dados clínicos, avaliação contínua e compreensão individualizada para adaptar as intervenções de forma precisa às necessidades de cada paciente. Isso pode envolver o uso de tecnologia e ferramentas de avaliação mais sofisticadas.
- Uso da Tecnologia: A incorporação de ferramentas digitais, aplicativos e tele-saúde para ampliar o acesso ao tratamento, monitorar o progresso dos pacientes e oferecer suporte entre as sessões.
- Ênfase na Prevenção e Promoção da Saúde Mental: A aplicação dos princípios da PBE em programas de prevenção de transtornos mentais e promoção do bem-estar em diferentes contextos.
Em suma, a jornada das terapias comportamentais, desde a sua primeira onda focada no comportamento observável até as abordagens contextuais e de aceitação da terceira onda, demonstra um compromisso constante com a busca por intervenções eficazes e cientificamente embasadas. A “próxima onda” da PBE já contribui com sua visão quanto aos processos, e espera-se que novos estudos possam trazer mais possibilidades de tratamento “padrão ouro” para a prática baseada em evidências dentro da psicologia clínica.


